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Uma pesquisa divulgada na última semana mostra que a primeira “atividade cultural” que os brasileiros querem fazer no pós-pandemia é voltar a frequentar bares e restaurantes. O levantamento, promovido pela consultoria de pesquisa e monitoramento de mercado Hibou com o Hub Cultural, aponta que 70% dos entrevistados com certeza ou provavelmente sim se mostram dispostos a retomar este hábito, mais do que a frequência aos cinemas, parques públicos, shoppings centers e demais instalações culturais.

O estudo, realizada no final de 2020 com vistas para o comportamento neste ano, entrevistou 1.726 brasileiros com faixa de renda de R$ 3 mil a mais de R$ 20 mil nas cinco regiões do país, e apontou ainda que mais da metade deles (57%) pretende manter o padrão de consumo de antes da pandemia nos estabelecimentos ou mesmo aumentar os gastos.

Para os pesquisadores que elaboraram o levantamento, a noção de cultura dos brasileiros teve uma importante mudança durante a pandemia. Lígia Mello, sócia da Hibou, explica que foi curioso ver as pessoas incluindo a ida aos restaurantes como um evento cultural, algo que nem era o foco da pesquisa.

“No começo, o objetivo da pesquisa era abranger a área cultural, e percebemos que a primeira coisa que os brasileiros querem fazer na retomada é ir aos restaurantes, e depois que vem as atividades culturais. É algo como ‘vou me reunir com meus amigos ou família no restaurante ou no bar com os colegas do trabalho’, a socialização em voltar a encontrar as pessoas”, conta.

Lígia conta que, durante a apuração da pesquisa, ouviu de muitos entrevistados que a convivência em um cinema, por exemplo, tem uma duração muito menor e com pouca interação, diferente de um bar ou restaurante. Para ela, estes estabelecimentos tem nas mãos o “controle de ser o abre-alas pós-vacina”.

Necessidade de interagir

O levantamento da consultoria Hibou confirmou o que a Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) já vinha observando com a flexibilização dos decretos sanitários em meados de outubro para novembro do ano passado, com as pessoas voltando às ruas e retomando o consumo nos bares e restaurantes.

Para Paulo Solmucci, presidente da entidade, é natural do brasileiro querer interagir e socializar, algo que foi drasticamente interrompido de uma hora para a outra no começo da pandemia.

“Gente gosta de ser cuidada por gente, e o bar e o restaurante são os lugares mais apropriados e democráticos para essa convivência. E o ser humano que está vivendo essa pandemia vem perdendo essa alegria maior que é o relacionamento com as pessoas, e o bar e o restaurante são a casa do relacionamento”, afirma.

Embora o brasileiro tenha essa necessidade de interação, de reencontrar as pessoas, ainda há a incerteza em relação a quando isso vai acontecer plenamente. A dificuldade em montar um plano certeiro de vacinação é o principal entrave para que os brasileiros retomem o antigo hábito de sentar numa mesa de bar para o happy hour ou um almoço ou jantar entre amigos.

A pesquisa revelou que 42% dos entrevistados dizem que isso vai sim ocorrer em 2021, mas não souberam dizer em qual época do ano. Outros 35% foram além e afirmaram que não tem a menor ideia de quando vai acabar o isolamento social, e apenas 7% disseram que estão frequentando normalmente os restaurantes ou eventos culturais liberados pelas autoridades municipais e estaduais.

“Isso vem de um trauma de 2020, em que o brasileiro sempre fez planos para a quando a pandemia acabar. Mas ela não acabou e agora as pessoas estão cada vez mais indecisas ao ver que nenhum plano funcionou”, analisa Lígia Mello.

Isso vai esbarrar ainda na questão da vacinação, em que 67% dos entrevistados dizem que voltarão plenamente aos eventos somente após a imunização.

Gasto da vingança

Embora ainda não tenha uma certeza de quando voltará a frequentar plenamente os bares e restaurantes, os brasileiros entrevistados na pesquisa do Hub Cultural foram categóricos em afirmar que vão enfiar a mão no bolso na retomada – contrariando muitas previsões de analistas que dizem que as pessoas pretendem segurar os gastos.

É o que Lígia Mello chamou de “gasto da vingança, algo como ‘passei o ano inteiro em casa, eu mereço me dar esse luxo’”. 43% dos entrevistados pretendem gastar de R$ 200 a R$ 400 por mês com cultura, e subindo até mais para a conta nos bares e restaurantes.

Esse panorama de gastos maiores nos restaurantes traz uma sensação de alívio ao setor, o mais prejudicado pela pandemia junto dos operadores de turismo. Mas, traz também uma responsabilidade ainda maior de convencer os clientes de que o bar ou o restaurante são ambientes seguros – 70% dos entrevistados ainda não se sentem confortáveis em ir a estes lugares.

Flávio Guersola, CEO da Guersola Consultoria e professor do Instituto de Negócios da Gastronomia (ING), ressalta que os cuidados tomados atualmente ainda devem fazer parte da rotina dos bares e restaurantes por muito tempo mesmo com a vacinação contra a Covid-19. Mas, mais do que oferecer álcool em gel e salão com distanciamento de mesas, é preciso demonstrar e reforçar isso aos clientes.

“Os restaurantes precisam demonstrar para o público se sentir seguro, fazendo seu marketing com a sua força para que os brasileiros possam retornar ao restaurante. Atender bem para retomar o faturamento”, pontua.

Guersola conta que vem acompanhando o desenvolvimento e a adaptação de muitos restaurantes aos novos hábitos desde o ano passado, e que muitos deles hoje já estão com o faturamento praticamente igual à antes da pandemia ou até maior. Além de adotar todas as precauções necessárias, eles conseguiram comunicar isso aos clientes e retomar a confiança deles.

Confiança pela vacina

Para tentar acelerar a retomada da confiança dos clientes, a Abrasel começou uma campanha de conscientização das pessoas para a necessidade da vacinação contra o coronavírus. Como o slogan “Vacina: eu confio”, o movimento está publicando imagens de diversos chefs e restauraters fazendo um ato simbólico de imunização, como Alex Atala, Janaína Rueda, entre outros.

Para o presidente nacional da entidade, só mesmo a vacina trará mais estabilidade para a recuperação do setor. Paulo Solmucci conta que os restaurantes estão fortemente comprometidos com o combate à pandemia, já que dependem do fim dela para preservarem os negócios e os empregos gerados.

“Agora estamos na torcida para que a vacinação chegue mais rápido e em maior quantidade. Com a campanha, esperamos que grupos prioritários tenham mais incentivo de familiares e pessoas próximas para se imunizar”, explica.

Ele lembra que o setor está disposto até mesmo a dar apoio logístico se for necessário, com os restaurantes abrindo as portas para isso.

Fonte: Gazeta do Povo

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